*por Rodrigo Otávio
A atual fase da comunicação no Brasil é caracterizada por uma rápida evolução, intensa concorrência e um alto grau de fragmentação. Plataformas como YouTube, Kwai, TikTok e Instagram se tornaram referências ao possibilitar tanto a criação quanto o compartilhamento de conteúdos, além de utilizarem algoritmos avançados que identificam as preferências dos usuários com bastante precisão. Assim que o usuário acessa esses aplicativos pela primeira vez, eles apresentam sugestões baseadas em interesses variados — política, humor, esportes, entretenimento — moldando a experiência individual de consumo. No entanto, essa dinâmica não é observada no GloboPop, serviço de vídeos lançado pelo Grupo Globo em abril. Um teste realizado pelo site HT evidenciou que a experiência com o aplicativo é confusa. Após o download e login inicial, não há opções de escolha temática ou curadoria inicial que ajudem a direcionar o algoritmo. Como resultado, o GloboPop oferece uma sequência aleatória de vídeos sem qualquer coesão.
Durante a navegação na plataforma, os usuários encontram conteúdos muito diversificados: desde vídeos de futebol e reportagens do G1 até trechos de novelas e clipes do Jornal Nacional, junto com material exclusivo criado por influenciadores.
A falta de conexão entre os conteúdos resulta em uma disposição aleatória que não segue um critério claro, gerando uma navegação heterogênea que pode não ser satisfatória.
GloboPop (Foto: Divulgação/Globo)
Uma parte significativa do conteúdo do GloboPop é reaproveitada da própria rede Globo, enquanto apenas uma fração é realmente original e criada por influenciadores vinculados à plataforma. Esses materiais são organizados em “palcos”, uma tentativa de segmentação que na prática falha em seu propósito. Por exemplo, o palco do programa “Em Família” reúne vídeos já exibidos anteriormente no Instagram ou na televisão, enquanto os conteúdos dos influenciadores estão restritos àquele espaço específico. Em uma seção dedicada a uma ex-participante do Big Brother Brasil, predominam clipes reaproveitados do Gshow. Até mesmo jornalistas como Renata Vasconcellos são categorizados como “influenciadores”, apresentando páginas que frequentemente contêm vídeos extraídos dos telejornais.
Globo pop é horrível kkkk ZERO recomendações
— Kledson Araujo (@KledsonAraujo1) May 14, 2026
O GloboPop não se configura como uma rede social. Trata-se de um espaço curado onde o público pode acessar conteúdos coletivos organizados com responsabilidade editorial. A proposta foi desenvolvida para aqueles que buscam informação, emoção e entretenimento sem se expor a conteúdos inadequados ou fora de contexto – Patricia Fontes, líder de produtos digitais de entretenimento.
Patrícia Fontes e Rodolfo Bastos, diretores do GloboPop (Foto: Divulgação/Globo)
Outro aspecto crítico diz respeito à falta de formatos populares atualmente no consumo digital. As chamadas “novelinhas verticais”, muito apreciadas no Kwai e TikTok — plataformas das quais a própria Globo se utiliza — estão ausentes do GloboPop; isso evidencia uma desconexão com as tendências já estabelecidas. Ademais, ao contrário do TikTok, o aplicativo não oferece uma navegação temática intuitiva com categorias claras como “notícias”, “humor” ou “influenciadores”. Não há também facilidade para visualizar a duração dos vídeos ou identificar claramente a data das publicações — deficiências que comprometem tanto a usabilidade quanto a transparência da experiência.
É preciso reconhecer que essa iniciativa tem relevância num cenário onde outras emissoras tradicionais enfrentam desafios ainda maiores. O SBT com o +SBT avança lentamente rumo à irrelevância digital; enquanto isso, Record com o RecordPlus e Band com o BandPlay permanecem atreladas a modelos mais voltados ao Globoplay do que às novas plataformas de vídeos curtos. Nesse panorama, o GloboPop tenta preencher um espaço ainda pouco explorado pelos seus concorrentes diretos; contudo, parece haver um certo descompasso na tentativa da Globo em se estabelecer mais fortemente no ambiente digital através desse projeto.
GloboPop é uma plataforma da Globo (Foto: Divulgação/Globo)
Apesar disso, a plataforma enfrenta um problema estrutural: busca abarcar múltiplas funções simultaneamente sem conseguir consolidar uma identidade clara. Tenta replicar a agilidade do TikTok e Kwai mas não se configura como rede social – conforme afirma a própria Globo. Flerta com o modelo do YouTube mas não permite aos usuários criar seus próprios conteúdos nem promove interações significativas entre eles. Falta um eixo estruturante bem definido. Neste estado atual, ajustes substanciais são necessários para que se torne relevante em um ecossistema digital extremamente competitivo e exigente.
Embora haja um evidente esforço para dialogar com novas formas comunicativas, a execução sugere uma tentativa pouco eficaz de “reinventar a roda”, sem compreender plenamente as dinâmicas essenciais para o sucesso das plataformas digitais nativas — especialmente ao criar uma “rede social” sem conectar efetivamente as pessoas e apresentar uma plataforma de vídeos cujos concorrentes oferecem experiências mais atraentes.
A publicação sobre as falhas conceituais e na execução do GloboPop destaca as dificuldades enfrentadas pela Globo para competir com TikTok e Kwai.




