*por Rodrigo Otavio
A discussão sobre a crise do humor na televisão brasileira é recorrente. Após a tentativa de renovação do “Zorra Total” com o “Zorra”, a Globo buscou novas alternativas, como o programa “Aberto ao Público”, mas nenhuma dessas iniciativas obteve sucesso. Outras emissoras também se aventuraram em propostas questionáveis, como a Band com o peculiar “‘Nois’ na Firma”. Diante de tantas tentativas frustradas e amplamente rejeitadas pelo público, o cenário do humor na TV nacional parecia desolador. É nesse contexto que o Multishow surge como um inesperado protagonista de uma reviravolta, apresentando uma abordagem mais inovadora para revitalizar o gênero no formato de TV por assinatura. O canal lançou “ET”, um programa estrelado por Eduardo Sterblitch e Tatá Werneck, com um trocadilho que faz alusão a extraterrestres, já entregando sua proposta de forma irônica. E essa proposta realmente se mostra eficaz.
“ET” traz uma lufada de ar fresco em um panorama televisivo sufocado pela repetição, embora seja importante mencionar que não se trata exatamente de uma novidade em sentido estrito. Na verdade, o programa carrega a essência e o estilo do humor cultivado pela nova geração da MTV brasileira, onde Tatá Werneck, Marcelo Adnet e Bento Ribeiro trabalharam juntos em produções que eram criativas mesmo com orçamentos limitados. Essa referência é clara em vários momentos. No entanto, diferente da época da MTV, “ET” conta com uma estrutura e um investimento financeiro significativamente superiores — algo que acaba fazendo toda a diferença.
Com características disruptivas e criativas, “ET” se destaca por sua natureza absurdamente divertida. Essa característica pode ser tanto sua maior força quanto seu principal desafio: apostar na originalidade do nonsense pode gerar resultados geniais ou cair no trivial desnecessário. Até o momento, o programa tem conseguido manter um bom equilíbrio. A atração investe fortemente nos talentos, carisma e criatividade dos seus protagonistas — e isso, num cenário televisivo marcado por fórmulas rígidas e métricas seguras, já é quase uma revolução. Um telespectador resumiu bem no Twitter: “O programa não faz sentido algum e por isso é genial.” Difícil refutar tal afirmativa.
A MTV sempre enfrentou desafios relacionados à audiência baixa e à escassez de recursos financeiros, resultando em muito talento desperdiçado devido à falta de infraestrutura adequada.
Tatá e Sterblitch reinventam o humor do Multishow com ET e transformam o canal em uma MTV com melhor orçamento (Foto: Juliana Coutinho)
“ET” representa a versão idealizada que poderia ter existido — finalmente realizada com os recursos certos, liberdade criativa e os mesmos elementos que já mostraram seu valor no passado. Isso não é pouco.
No terceiro episódio do programa, Sterblitch revive dois personagens conhecidos pelo público: o “Melhor Melhor do Mundo” e o Freddie Mercury Prateado, figuras que já faziam sucesso durante os tempos do Pânico na TV. Essa revisitação é eficaz porque o ator tem consciência sobre quando repetir uma fórmula com graça e quando é necessário quebrá-la.
Freddie Mercury Prateado faz sua aparição em “ET” (Foto: Divulgação/Globo)
Entretanto, o que talvez destaque “ET” em relação aos seus predecessores não reside apenas nos esquetes ou na produção técnica. Está na habilidade de rir de si mesmo. Tatá e Sterblitch brincam abertamente com suas limitações nos roteiros, aceitam os erros de maneira leve e transformam a conexão entre eles em uma fonte cômica rica. Essa abordagem simples — mas raramente bem executada — é a mesma que dá suporte a programas populares como “Vai que Cola” e “Sai de Baixo”. Além disso, aproxima “ET” de produções que souberam usar a televisão como objeto de crítica e autocensura humorística, como “TV Pirata” e “Tá no Ar”.
Um aspecto contextual importante a ser considerado é que “ET” estreia enquanto Tatá Werneck explora novas facetas profissionais em sua carreira. Na novela “Quem Ama Cuida”, ela vive uma personagem que flerta com o humor mas se revela essencialmente uma stalker trágica — um território dramático distante da zona de conforto que lhe trouxe fama. Essa coincidência é bastante reveladora: enquanto ela amplia suas habilidades em um campo, reafirma seu domínio no outro. Ao final das contas, “ET” representa inovação justamente por não tentar reinventar tudo; seu mérito está em confiar — agora com estrutura adequada — nas qualidades que seus artistas sempre tiveram em abundância: talento.
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